Passadas umas duas horas de filme eu lembrei de que já estava na sala de cinema “há um certo tempo”. Olhos concentrados na tela, queria mesmo era que ainda houvesse outras duas. Assim se passaram as quase três horas em que assisti ao novo filme de David Fincher. O Curioso Caso de Benjamin Button (2008 ), com Brad Pitt e Cate Blanchett, estreiou na última sexta-feira, dia 16.

A produção é baseada no conto de F. Scott Fitzgerald, de mesmo nome, publicado em 1922 na revista Collier’s Weekly. Trata-se da diferente história de Benjamin Button, um bebê que nasce velho, em 1918, com problemas da velhice – como catarata e artrite –, e que rejuvenesce com o passar dos anos. Com a morte da esposa durante o parto, o pai de Benjamin, após perceber a estranheza da criança, abandona-a na porta de uma espécie de lar de idosos, onde ele é encontrado por Queenie (Taraji P. Henson), administradora do tal lar. Ela resolve criá-lo, mesmo com as expectativas de que talvez ele não tivesse muito tempo de vida.

Criado no meio de idosos, Benjamin não se sente estranho, mas conhece, desde cedo, a dor de perder aqueles que lhe são queridos. Ainda criança (em idade), conhece Daisy (interpretada por Blanchett na maturidade), a neta de uma das integrantes do asilo. Com ela, Benjamin brinca e, quando adulto, apaixona-se.

Depois de chegar aos 17 anos, já não tão envelhecido, o protagonista resolve partir para conhecer o mundo e a vida. Entre aventuras, trabalho e mulheres, percebe-se que o amadurecimento de Benjamin é inversamente proporcional a seu rejuvenescimento.

A parceria Fincher e Pitt já rendeu outras dádivas ao cinema. A primeira delas foi em 1995, com Seven. Depois veio O Clube da Luta, de 1999. Mas nenhuma comparação aqui é possível. E isso se deve, em parte, ao roteirista Eric Roth, o mesmo de Forrest Gump (1994). A ingenuidade e a delicadeza de Button, personagem de Pitt, lembra um pouco a história da personagem de Tom Hanks.

Mesmo fantástica e inusitada, a história do garoto que nasce velho e se torna cada vez mais jovem se aproxima da realidade pelos fatos que envolvem seu enredo, como as Primeira e Segunda Guerra mundiais e o furacão Katrina, que atingiu New Orleans – o lugar onde se passa o filme – em 2005. Orçada em 150 milhões de dólares, a obra conta com bons efeitos de maquiagem. Pitt – que viveu a maioria das fases da personagem, passando a bola a atores mirins apenas nos últimos momentos – precisava de cinco horas diárias para concluir a caracterização física da personagem.

Um pouco em tom de fábula, a produção fala de vida, morte, envelhecimento, juventude e, principalmente, das fronteiras tênues que separam tudo isso. O tempo não deixa de ser também uma personagem do enredo, uma vez que ele passa para todos, independentemente do sentido em que se dirige. De bebê a velho, ou de velho a bebê, passamos pelos mesmos decobrimentos, mesmas dores, mesmas dependências ao mundo externo – o que inclui as pessoas que nos rodeiam. O que importa, portanto, não é em que sentido a vida passa, mas como fazemos ela passar e os princípios que nos levam adiante.