Tem uma frase do filme O Curioso Caso de Benjamin Button que, além de fazer os espectadores rirem, ficou martelando na minha cabeça. Lá pelas tantas, Daisy (Cate Blanchett) diz para Benjamin (Brad Pitt): “Que diferença faz se no começo ou no fim todos usamos fraldas”.

Pois é. Que diferença faz? Não foram poucas as vezes em que vi pessoas olharem para as pessoas velhinhas – às vezes em cadeiras de rodas, às vezes esquecendo os fatos, às vezes usando fraldas – e comentarem: “Quero morrer logo, não quero ficar assim”. Outras tantas olham para seus pais, tios ou avós e ficam desconcertados por vê-los precisando de suporte.

Crianças também precisam de suporte – ou de fraldas –, mas ninguém se atreve a achar triste ou decadente. Porque as crianças são o futuro. Mas e os velhinhos? Que lugar simbólico lhes sobra além do fim?

Todos os velhinhos me doem. Não porque eu fique triste por eles ou sinta pena ou os ache decadentes pelo uso de fraldas. Todo velhinho me faz lembrar do tempo que ainda faltava para meu pai precisar de suporte. A cada cabeça branca na esquina, a cada passo mais lento a minha frente, eu vejo um pouco dele alguns anos além. Imagino-o esquecendo coisas, trocando fatos, pedindo o meu braço para levantar.

E em cada passo em falso, em cada tombo, em cada refrescar de memória, eu estaria lá. Por isso – e quaisquer outros motivos seriam estúpidos – é que todos os velhinhos me doem.