Felicidade por Charlie Brown


Bem que podia ser simples assim, né?

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A tia metida à "engraçadinha"

Eu tinha uns 16, 17 anos. Ela, uns 4 ou 5. Folheávamos juntas – tia e sobrinha – uma revista qualquer. Paro o olhar em uma propaganda de perfume que ocupava duas páginas. Na extrema ponta da página direita, o vidro da fragância. Na página esquerda, um rosto de mulher, cujo nariz estava esticado até a outra página – sim, como o Pinóquio. Resolvo então ter um rompante de senso de humor apimentado com doses de pedagogia barata e faço a brincadeira: “Olha só, se mentir demais acontece a mesma coisa com o teu nariz”.

A garotinha me observa alguns segundos e, bem séria, diz: “Tia, tu mentiu muito?”.

Mais uma vez Huxley

“… Um homem é um ser que anda sobre uma corda esticada, que caminha sobre ela delicadamente, equilibradamente, tendo, numa das extremidades da vara que o mantém em equilíbrio, o espírito, a consciência, a alma, e, na outra extremidade, o instinto e tudo o que é inconsciente, tudo o que é terreno e misterioso. Em equilíbrio, sim. Coisa que é formidavelmente difícil. E a única coisa absoluta que ele pode jamais conhecer realmente é o absoluto do equilíbrio perfeito. O absoluto da relatividade perfeita. E isto, sob o ponto de vista intelectual, é um paradoxo, um contrasenso. Mas assim o é também toda a verdade real, autêntica, viva – simples contrasenso, segundo a lógica. E a lógica é um simples contrasenso também à luz da verdade viva. Vocês podem escolher a que quiserem – a lógica ou a vida. É questão de gosto. Algumas pessoas preferem ser cadavéres…”

Mais de dois meses para conseguir “ruminar” 691 páginas. Demorei para terminar “Contraponto”, de Aldous Huxley, porque o livro não é dos mais fáceis de ser degustado. Para começo de conversa, o nome da publicação inglesa, de 1928, faz referência ao termo musical que significa a arte de sobrepor uma melodia a outra; o conjunto de técnicas composicionais da polifonia. Por derivação, hoje também significa o uso de contrastes ou temas entrelaçados num texto literário, num filme. O livro de Huxley não tem um foco narrativo; são diversas personagens em diferentes situações, que, por vezes, encontram-se e produzem conversas profundas e intelectuais. Essa técnica de justapor protagonistas foi utilizada por Erico Verissimo – tradutor da obra no Brasil – em “Os caminhos se cruzam” e “O resto é silêncio”.

Nas anotações da personagem de Philip Quarles ou nos discursos de Mark Rampion, fica sempre clara a crítica do autor a um século XX em crescente desumanização. Ambientado na Inglaterra do período entre-guerras, Huxley aponta para a evolução do tecnicismo e do intelecutalismo, que levam os homens a querer conhecer mais e mais e cada vez viver menos. O reflexo é percebido nos relacionamentos com problemas de comunicação, nas famílias desestruturadas, na arte impessoal etc.

O livro preferido de Paulo Autran certamente entrou para a minha “listinha” também.