Nossa despedida

Tanta coisa que a gente se esforça para lembrar nos mínimos detalhes e, quando a gente vê, a memória vai apagando, como a foto de Marty McFly em De Volta para o Futuro – cada vez que ele olha para ela, tem um detalhe a menos.
Em compensação, tem fatos que não apenas marcam, como também se assemelham a um hipertexto, basta um linkzinho e foi, volta tudo bem nítido, rico em detalhes.
Vou demorar a esquecer o dia em que tive que contar para minha mãe sobre a morte do pai. O desespero dela, o espanto. Ter que segurar o choro, esquecer por milésimos de segundo a própria dor para ser a muleta da pessoa que viveu com ele por 51 anos. Também vai ser longo o tempo para que não fique mais com um certo medo cada vez que toca o telefone no trabalho.
Desde o dia que meu irmão me deu a notícia, por telefone, que eu não veria mais meu pai, sem nem ao menos me despedir, eu faço um esforço enorme para lembrar dos nossos últimos momentos. E tudo parece como os flashbacks de novelas, coberto por névoas. A última lembrança é o cabelinho despenteado parado na frente da porta do meu quarto, como ele fazia todas as manhãs, para conferir se eu não tinha me atrasado.
À cada noite, ficava torcendo para sonhar com ele, vê-lo mais um pouco. Mas eram sempre sonhos bobos, com uma presença nada nítida, em contextos estranhos. Mas também tinha medo de sonhar que era tudo uma mentira e ter que acordar com o que era real.
Então aconteceu o que, mesmo sempre tão cética, quase acredito não ter sido sonho, mas a maneira que ele arranjou para me deixar tranqüila.
Sonhei com ele em uma tarde de domingo. Ele tinha voltado, como se nada tivesse ocorrido. Não tinha mais ninguém, só nós dois. Era ele tipicamente, sem nenhuma atitude diversa, nítido, real, tangível. Então, olhou para mim com aquela expressão de pai orgulhoso que sempre fazia quando me confiava um segredo: “Tu sabe o que aconteceu, né? E que eu preciso ir?”. Não podia ficar porque tinha recebido um “cargo” de Deus. Seria seu conselheiro de justiça. Contou-me aquilo com a felicidade de quem tinha agora uma função a sua altura.
Sem perder a oportunidade, perguntei se eu o tinha abraçado e dito o quanto amava suficientemente durante nosso tempo juntos. Ele me abraçou mais uma vez. Bem forte. “Sim, pode ficar tranqüila.” O sonho acabou quando o vi ir embora, assumir sua nova e importante missão. A primeira, a de ter deixado um tantão dele em mim e em outros sete, já estava cumprida.

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