Um protesto

Na semana em que estava no Uruguai, acordei de uma dessas noites de sonhos que nos deixam com uma sensação de ressaca. Sensações sorvidas por horas que são, na verdade, minutos. Prazeres intangíveis, passado em resgate, simulacros de encontros.

Acorda-se buscando o que se passou. Então, lá no meio do viver, vem a lembrança. Lembra-se o quanto os tais minutos-hora foram felizes. Mas a velocidade do feliz-infeliz é a mesma do irreal-real.

Sonhei que meu pai, com seu castelhano perfeito, me acompanhava na viagem. Pai, como nunca soube te chorar nem te maldizer, por meio desse poema do Drummond, fica meu protesto

A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

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Homens de neandertal já fomos

Flaubert, enfastiado da França, buscou encontrar no Oriente tudo aquilo que não encontrava em seu país, como conta o filósofo Alain de Botton no livro A Arte de Viajar.

Meu lado Flaubert arrancou-se para Argentina e Uruguai nestas férias, mas em um sentido meio inverso. No meio da correria da rotina, nem sempre se percebe as mazelas da nossa cidade. Não fui à procura do diferente, mas deparei com algumas cenas que me chamaram a atenção nas capitais dos hermanos.

O trânsito em Buenos Aires, cidade grande que é, obviamente é mais caótico do que em Porto Alegre. De qualquer forma, toda vez que precisei atravessar uma rua, os motoristas efetivamente começam a parar no sinal amarelo. Aqui, parece que houve uma inversão da sinalização. O sinal de cuidado é inútil. Passei a perceber, nas minhas corridas, que, não eventualmente, os motoristas ultrapassam o sinal vermelho só porque recém mudou.

Em Montevidéu, não é preciso esticar nenhuma mão e esperar que os carros parem, como se o pedestre pedisse o favor de o condutor parar o veículo, ainda que a obrigação esteja prevista em lei. Acostumada em não acreditar na educação no trânsito porto-alegrense, caí em espanto quando, simplesmente ao parar no cordão da calçada para esperar a ausência de veículos, ví uma fila de motoristas uruguaios pararem imediatamente para a minha travessia.

Mais um ponto para Buenos Aires: idoso tem vez no metrô. Das quatro linhas lotadas que precisamos tomar na capital argentina, minha mãe de 75 anos ganhou lugar imediatamente. Outra sinalização ignorada por muito porto-alegrenses: os bancos amarelos reservados aos mais velhos no momento em que o ônibus está cheio de velhinhos.

E a vida ao redor do Rio da Prata? Quando a orla do Guaíba chegará um pouquinho perto daquilo?

E viva as férias

Depois de um belo fim de semana na companhia de amigos em Santa Catarina, cá estoy en Uruguay. Dessa vez, sola, sin mamá!

Nao posso reclamar de todas as companhias de viagem que tive até hoje. Todas foram muito parceiras, sem estresse algum. Mas que esse lance de viajar sozinha é bom, isso é. Caminhadas no próprio ritmo, sem consultas para decisoes, enfim, all by yourself.

Montevidéu é bem legal. Mais tranquila que Buenos Aires, obviamente, mas tem seus encantos. O principal deles hoje, sem dúvida, foi o Teatro Solís. Rolavam visitas guiadas em português a 40 pesos uruguaios (o equivalente a 4 reais), mas quarta é dia de visita guiada gratuita em espanhol. Fui nessa. Nao para poupar, mas para treinar o ouvido mesmo, já que as férias me renderao três faltas no curso de espanhol do Nele.

Rolavam também umas intervençoes artísticas durante a visita. Depois tentarei subir os vídeos no youtube. Agora rola uma preguiça e também o tempo na internet do hostel é limitado.

Na hora do almoço, fui até o Mercado del Puerto, onde dá para se comer belos pratos de carne. Nao é nada como se encher meio a boca livre, por um preço barato, como foi no Siga La Vaca, no Puerto Madero de Buenos Aires, mas deu para comer um belo entrecot, uma boa sobremesa e tomar um cafezinho. Meio carinho (tipo 60 reais tudo), mas valeu a pena.

Putz… minha mae descobriu meu segredo

Como é bom dar banda sozinha por uma cidade. Ontem, já que mamis tava meio cansada para fazer muitas caminhadas, aproveitei para dar uma banda no meu passo e ritmo.

Fui trocar dinheiro e olhar lojas na Florida. Quando vi, já era mais de uma da tarde. Estomago começou a apertar e, até sair de casa, depois de buscar dona Marly, e achar o tal El Desnível, dica de André Mags, era por volta de 15h. Mas beleza, rolou a primeira boa e farta refeiçao da viagem, com direito a mamis se assustar com o fato de eu ter comido um pedaço de vazio enorme, mais o nhoque que ela nao conseguiu dar conta:

– Agora entendo o que falam de ti.

He.

Depois, fomos caminhando bem na manha até La Bombonera e Caminito. No caminho, um dos parques que achei mais bonito por aqui, o Lezama.

Como nao poderia deixar de fazer sem a Cris, mae de meu afilhado, torcedora do Boca, nao ficar decepcionada, visitei o museu e o estádio do Boca, na sequência. Muito legal. Várias tentativas para minha mae se acertar com a máquina digital, mas, no fim, tudo deu certo. Tirando, claro, a vergonha alheia do momento em que ela tirou o sapato para colocar em cima da estrela do pé do Maradona em frente à entrada do museu.

Depois demos uma banda no Caminito, que já estava em ritmo desacelerado a essas alturas, mas, ainda assim, deu para curtir. Na volta, pegamos um bus até San Telmo e, sem querer, descemos do lado do hostel. Ha, já to manjando muito dessa cidade 😉

****

– Ah, que bonitinho, olha uma bonequinha da Mônica sentada naquele banco.

– Mae, nao fala isso alto de novo. Aquela é a Mafalda.

Amistoso ganho, amistoso perdido

Entramos no táxi e, no rádio, mais um gol é gritado. Argentina 3 X 0 Espanha. Ao meu lado, caminhada 10 x 0 Marly. Ainda bem que, em ambos os casos, é apenas um amistoso. Ou nao. A festa no hostel é de quem ganhou O jogo. Ah, pois é, a Espanha é a atual campea da Copa.

Perdi a conta dos quilometros andados e um pouco do bom senso. Essa cidade é tao maravilhosa de andar… E quando se está há mais de quatro meses correndo pelo menos quatro vezes por semana, tudo é muito barbada. Mas esqueci que mamis é véinha… e cansa… e só iria reclamar quando estivesse mesmo na sua última gota de resistencia.

Obelisco, avenidas Santa Fé, Córdoba, 9 de Julho, Corrientes, Jardim Botanico, Teatro Cólon, tudo isso a pé. Hoje, parece que terei de dar uma folga para mamis. Procurar alguns roteiros para fazer sozinha.

Já tenho algumas fotos na máquina, mas, no cmputador onde estou, parece que a USB nao funciona. Entonces, fica para a próxima.

O primeiro… ou zero dia(?) em Buenos Aires

Sem grande novidades no primeiro dia em Buenos Aires. A passagem em preço amigável acabou em um voo de conexoes até por Assunçao.

Até chegar no hostel, que é bem legal, embora meio barulhento, rolou uma boa dormida e nada de passeadas pelas ruas, ainda. Bom que ele fica em uma área bem central e, alem de tudo, ouço portugues direto por aqui.

Enquanto isso, a diversao fica por conta de dona Marly. Descemos do táxi, em frente ao hostel e, em portugues mesmo, disse para o taxista “gosto muito dos argentinos, principalmente do Maradona”. He

Ela que descanse bastante hoje, porque amanha rolará uma pernada, aproveitando o sol e as temperaturas muy agradáveis.