ES-CRA-VA

Minha passagem por El Calafate foi rápida, mas ao menos não saí frustrada por perder o perito moreno. Perdi foi a manta que trouxe, uma daquelas que a gente gosta um monte, sabe? feita por mãe e tal.

no dia 24, saí cedinho de calafate rumo a puerto natales, no chile, a cidade de onde se acessa mais facilmente o parque nacional torres del paine, patagônia chilena. lá, o plano era fazer o circuito w, quatro dias de caminhada para visitar alguns pontos principais do parque. Há versões mais extensas, como o circuito O, mas aí são de sete a 10 dias, o que já achei demais para uma viajante sozinha, né?

puerto natales é uma cidade de seus 20 mil habitantes, mas com uma infra bem boa, já que recebe essa gringalhada toda para as aventuras patagônicas. falo em gringos porque não vi nenhum brasileiro por ali. tem mais hostels do que residências e um monte de loja vendendo excursões ao parque ou material de camping. e é frio pra caramba na cidade que eles chamam de parte do “fim do mundo”. eu diria que é ali onde o vento faz a curva e dá uma boa despenteada.

A amável Puerto Natales, cidade de ventos e cuscos pelas ruas

 

na noite que passaria na cidade, fiquei num quarto com um cara da suíça e outro da rússia. primeiro momento de um certo temor. o russo, ao descobrir que eu era brasileira, lembrou de uma “famous soap opera in a farm”. “escrava isaura”, eu disse. e a partir daí o cara não parava de me pedir para repetir ES-CRA-VA, ES-CRA-VA. e repetia depois de mim. aí trouxe o note dele e pediu para que eu escrevesse o nome da novela em uma espécie de status de um facebook russo. “céus, que pessoa estranha!”. ok, passou a noite, nada aconteceu, e percebi que não era um psicopata, só um russo 😛

no outro dia, enchi a mochila de atum, chocolate, barras de cereal e roupas de frio (as refeições são bem caras lá dentro de torres del paine) e parti rumo ao parque, sem muita informação de como me guiaria no lugar, se era tranquilo mesmo fazer sozinha, bla bla bla. mas, enfim, agora já era. tudo pago e reservado nos refúgios onde passaria as noites e lá me fui.

daqui pra frente, vou dividir os posts por dia e o que rolou nessa pequena aventura introspectiva de que tento lembrar um pouquinho a cada noite, antes de dormir, para garantir que não a esquecerei.

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onde desliga o ventilador?

Partindo do “to be continued”: voo para el calafate na manhã de quarta-feira. podia chegar em três horas, como previsto se tivesse dado tudo certo com a primeira passagem, mas essa, remarcada, fazia escala em bariloche. rolou uma canseira de ficar tanto tempo sentada em avião, naquelas poltroninhas apertadas, mas, ok, pelo menos a pessoa dormiu um pouco (a ponto de nem ver quando o avião tinha decolado, pousado, blá blá, he).

em el calafate, começa o choque térmico. devia estar menos de 15 graus na cidade. até aí, ok. Nada que uma gauchinha não suporte. fiquei no hostel glaciar del libertador. quando cheguei lá, conversando com as meninas da recepção, descubro que é quase impossível visitar perito moreno no tempo que me sobra, já que os horários de ônibus e excursões são limitados. a não ser pagar um taxi ida e volta. não é tão caro, mas ainda assim, pesava no orçamento.

no tempo em que me ajeito no quarto, uma australiana, a Rianna, chega no hostel, com o mesmo problema. o problema vira solução, pois dividindo o taxi, fica só um pouco mais caro que as excursões. e lá vou eu, mais uma vez, falando mais inglês do que espanhol de novo. na verdade, dessa vez foi mais puxado o trabalho de “tradutora”, já que eu tinha que traduzir do espanhol do taxista (uma figuraça muito divertida) para o inglês da rianna e vice-versa. nada de português em calafate!

verdade é que podia ter ido sozinha que ainda assim valeria a pena a grana gasta. não importa nem a sensação térmica abaixo de zero próximo a essa geleira fantástica que é perito moreno. algo de sentar e ficar babando um dia inteiro, não fosse a friaca que faz por lá e o ventão que impossibilita fotos sem parecer uma propaganda de xampu. saquem só:

 

 

Outra coisa impressionante nesse lugar é tentar flagrar o exato momento em que pedaços da geleria caem. segundo o taxista, é um movimento de vai e vem. ela perde 2 metros por dia e ganha outros dois.o barulho que faz momentos antes de cair é algo fantástico, parece que virá tudo abaixo.

por sorte, num desses momentos, mesmo eu tinha ligado o modo vídeo da câmera. foi tanta emoção que escapou até uma pronúncia meio jeca do “recording”!

Here we go

Nada mais frustrante do que, com tudo pronto para viajar, descobrir que não se vai viajar. Ou, pior, ter de ficar aguardando para saber quando as previsões deixarão de ser previsões. Na segunda-feira, quando exatamente se iniciaria minha viagem de férias meticulosamente planejada em aproveitamento dos dias, uma pane técnica tomou conta dos aeroportos de Buenos Aires, de onde partiria meu voo para El Calafate.

As malas apenas vão e voltam comigo do Salgado Filho, um pouco mais pesadas pela frustração e ansiedade. A Aerolineas Argentinas pagou um taxi de volta para casa, mas não sabia dizer quando poderíamos viajar novamente. Já em casa, tentei colocar o sono em dia, mas dormi umas quatro horas, revirando na cama, pensando em maneiras de driblar a quebra do roteiro.

Então, a companhia ligou na terça pela manhã avisando os passageiros da possibilidade de voar até São Paulo ao meio-dia, então Buenos Aires, então sabe-se-lá-quando-calafate. imprecisão diretamente proporcional à ansiedade. e não chegando a tempo a calafate? como chego a puerto natales? como chego a tempo de torres del paine e o circtuito w que começaria no dia 24?

Mas quem disse que é para ser fácil? Depois de passar o dia viajando, cheguei a Buenos Aires às 19h de terça. Voos para Calafate apenas na quarta de manhã. Tentei reativar a reserva já paga do hotel que havia perdido na noite anterior. Sem jeito de reembolso, mas pelo menos tinha um lugar para passar a noite.

E, por fim, foi bem legal. Em terra de hermanos, o que mais rolou foi o inglês. Dei uma banda por Puerto Madero à noite, com uma menina brasileira que conheci, a Michele, e um casal de irlandeses, Sean e Rachel. A brasileira não falava quase nada de inglês, então fiquei brincando de tradutora até umas duas da manhã.

Consegui remarcar o circuito de torres del paine para dia 25, mas havia a chance de passar por el calafate sem ver perito moreno. mas, buenos, o desfecho dessa história fica para o próximo post. agora rolará uma boa dormida.

P.S.: tá ficando divertido isso de falar inglês e espanhol. vantagens de se viajar sozinha. me pego pensando nas duas línguas vez ou outra.

That’s all folks

Meu descanso mental nos últimos dias tem sido estudar roteiros. Como a maioria dos meus amigos sabem, em 21 de março saio de férias por uns 26 dias.

Dá um trabalho querer “apertar” tudo que se quer ver e fazer à medida que vai se estudando o que existe em um país. Na verdade, tive de cortar minha pretensão de chegar ao fim do mundo nesta viagem. Rolou deixar Ushuaia (Arg) de fora dessa vez.

Tudo porque veio a pilha de fazer Salar de Uyuni, na Bolívia. Quando vi, os 26 dias se tornaram poucos.Ah, e claro, o vício atual em corrida me levou à inscrição em meus primeiros 10km internacionais.

Depois de estudar voos, ônibus, trekkings, saiu o roteiro, quase todo reservado já. Começo por El Calafate (Arg), rumo ao Glaciar Perito Moreno. Na sequência, Puerto Natales e parque Torres del Paine (Chile). É aqui, sozinha com aquele monte de gelo e exuberância, onde pretendo descobrir porque preciso tanto dessas férias, principalmente de mim mesma.

Aí vai o roteiro. Depois de assistir 127 Hours, achei importante dividir  os planos com os amigos 😛

22/03 – El Calafate

23/03 – Glaciar Perito Moreno

24/3 – El Calafate-Puerto Natales

24 a 28/3 – Parque Nacional Torres del Paine

28/3 – Puerto Natales

29/3 – Puerto Natales – Punta Arenas – Santiago – Viñas del Mar

29/3 a 1º/4 – Vinas del Mar

1º a 3/4 – Santiago. Maratón Internacional de Santiago, em 3 de abril (10km) + curso intensvio de espanhol de 4 a 8/4

8/4 – Santiago-San Pedro de Atacama

9/4 a 11/4 – Atacama

12 a 15/4 – Salar de Uyuni, Bolívia

16/4 – SanPedro-Calama-Porto Alegre