Nem só de cheiros é feita uma memória

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Sempre falam dos cheiros. E dos sabores. Hiperlinks que vencem até os mais desmemoriados. Não tem jeito.

Também tenho meus cheiros. E meus sabores. E tenho meus livros.

Não lembro a história de todos eles. Mas lembro daquela baita dor de dente, em plena Patagônia chilena, que quase me desconcentrava de Adeus, Columbus, do Philip Roth.

Lembro de que a vida doía naquele exato momento em que lia Extremamente Alto, Incrivelmente Perto, do Jonathan Safran Foer. E nem era pela quase identificação com a história. A vida doía de não vida. De tudo poder acabar tão rápido quanto um ônibus que te leva ou um World Trade Center a cair. De vontade de fazer tudo ser bom imediatamente.

Pra quem a vida também dói aos 15 anos – e sempre dói nessa idade -, Os Sofrimentos do Jovem Werther, do Goethe, não pode ficar assim à mostra, na prateleira. Ainda bem que os 15 anos passam. E o romantismo, seja alemão, terceira geração ou de filosofia de bar, também.

Liberdade, aquele livro grosso e bem cotado do Jonathan Franzen, pesava na mochila. De tão bom, me transportava para um mundo bem além daquela sala de espera na UTI. Voltamos pra casa. O ex “comatoso” – essa palavra que tanto ouvi -, o livro e eu. “Ei, você que não me ouvia e agora fala sem parar, não quer ler Liberdade?”

E daquele Orwell a me mostrar tanto desapego, em Na Pior em Paris e em Londres, e também daquela vontade de fazer tudo ser bom imediatamente, sobrou também a cena do livro chegando às minhas mãos. Cheia de detalhes. E sobrou a dedicatória. Nada muito além disso. Mas tem uma vida para ser boa em 15 dias, três meses e um Natal, ou 52 anos. O importante é lembrar que precisa ser bom. Imediatamente.

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Do que eu falo quando falo de viajar de trem

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Torço pela pequena turbulência. E eu nem tô falando de vida e montanha russa de emoções (ao menos não nessa sentença). Os voos têm essa inércia que me fazem dormir antes mesmo do avião decolar e quase sempre acordar depois que já estão no chão. A pequena turbulência e o aviso de apertar os cintos me aliviam do tédio.

Gosto demais do movimento do trem. E de viajar de ônibus. Não é só o “enxergar” o deslocamento. É deslocar o pensamento para onde a gente não consegue no dia a dia. Uma forma de meditação? É o que parece. Tem gente que diz que coloca o pensamento em ordem em total silêncio, ouvindo o barulho da água, olhando para o mar, sentindo um cheiro. Eu reinvento situações, reorganizo ideias, acho soluções e bagunço tudo de novo, sem nenhum compromisso, no ritmo das formas que se repetem pela janela.

Essa reflexão já tinha me chamado a atenção em um livro do Alain de Botton chamado
A Arte de Viajar:

“Reflexões introspectivas suscetíveis a empacar são auxiliadas pelo fluxo da paisagem. A mente pode relutar em pensar corretamente quando se espera que ela apenas reflita. A tarefa pode ser tão paralisante como ter de contar uma piada ou imitar um sotaque a pedido de alguém. O ato de pensar melhora quando partes da mente recebem outras tarefas, ocupadas em ouvir música ou em acompanhar uma sucessão de árvores. A música ou a paisagem distrai, por momentos, aquela parte nervosa, crítica e prática da mente que se inclina para um bloqueio quando percebe algo difícil surgindo na consciência e que foge assustada de lembranças, anseios, ideias antigas ou originais, pois prefere aquilo que é administrativo e impessoal. […] Ao fim de horas de devaneios ferroviários, podemos sentir que voltamos a nós mesmos – ou seja, fomos trazidos novamente ao contato com ideais e emoções importantes. Não é necessariamente em casa que encontramos nosso verdadeiro eu. A mobília insiste em que não podemos mudar porque ela não muda; o ambiente doméstico nos mantém amarrados à pessoa que somos na vida comum, mas que talvez não sejamos essencialmente”.

Outra coisa que eu gosto muito de fazer em viagens é caminhar. E sozinha. Até uso os meios de transporte público durante a estadia em um local para conhecer como são nos diferentes lugares, mas nada me deixa mais à vontade do que uma “perneada” em um dia de sol. E por que sozinha? Não sou uma pessoa ranzinza que não gosta de companhia para viajar. Até senti falta nesta última jornada. Mas existe uma incrível liberdade em não falar – melhor, a não obrigatoriedade de falar, a não obrigatoriedade de ser escutada. É quase transgredir. Algo que, no dia a dia, busco por meio da corrida. E lá vou eu de referência literária novamente, dessa vez de Haruki Murakami, em Do que eu falo quando falo de corrida:

“Eu corro em um vazio. Talvez eu devesse colocar dessa maneira: eu corro para adquirir um vazio. […]  O desejo em mim de ficar sozinho não mudou. É por isso que a hora que eu passo correndo, mantendo o meu próprio tempo, em silêncio privado, é importante para ajudar a manter meu bem-estar mental. Quando eu estou correndo, não tenho que falar com alguém e não tenho que ouvir ninguém. Tudo que eu preciso fazer é olhar para a paisagem que passa. Esta é uma parte do meu dia que eu não posso ficar sem.”

Esses tantos lugares

“Quando a mão dela segura alguma coisa, as pontas dos dedos pressionam alternadamente como se tentassem lembrar como se toca uma melodia no piano. Talvez ela toque piano ou tocasse quando era pequena. O repertório de carícias de uma pessoa é uma coisa comovente de se pensar. Por que toca nas outras dessa ou daquela maneira. Vem de tantos lugares. O que imaginamos que deve ser bom, o que fizeram em nós e gostamos, o que é involuntário, o que é nosso jeito de agradar e pronto” 

(Daniel Galera, em Barba Ensopada de Sangue)

O repertório de carícias. Gosto da expressão para esses tantos lugares que te formam como um DNA único e ao mesmo tempo mutante. Espiral única onde o toque chega, espiral nova onde o toque recomeça. Minha, construída, tua, decorada.

Souvenir literário

Foto Daniel Mordzinski

Foto Daniel Mordzinski

Conaprole de baldão, bocadito Lapataia e alfajor Punta Ballena. Nada melhor pode vir na mala que volta contigo do Uruguai. A não ser 615 páginas de Benedetti.

Em um plantão de maio de 2009, quando eu fazia obituários aos domingos, Mario Benedetti morreu. Conhecia pouco dele até então. Do rosto simpático de velhinho da foto que escolhi para a página à voz que lê os próprios poemas que se encontram no youtube, ele me cativou.

São 615 páginas de contos de temas diversos

São 615 páginas de contos de temas diversos

E com ele nasceu minha mania de souvenir literário*. Coincidentemente, junto àquela primeira viagem totalmente sozinha, em setembro de 2010. Entrei em um sebo da 18 de Julio, em Montevidéu, e não resisti a Cuentos Completos. Desde então, tenho tentado trazer, dos lugares onde vou, um livro de um autor local, na língua local. Não consegui para todos os lugares, mas já são três exemplares.

o único lido por completo até agora

O único lido por completo até agora

Quando fiz uma semana de espanhol em Santiago, no Chile, em abril de 2011, meu professor falou de dois autores. Nicanor Parra e Roberto Bolaño. Saí de lá com um exemplar do então recém-lançado Los Sinsabores del Verdadero Policia. O único que consegui ler completo, até agora (mereço um desconto, o Benedetti tem 615 páginas, relembro vocês).

Valendo por dois

Souvenir de valor duplo

A ideia foi adiante nos EUA, quando comprei uma edição especial de aniversário de Howl and Other Poems, do Allen Ginsberg. Foi em São Francisco no The Beat Museum. Acabei não levando nenhum de Nova York, mas como o Ginsberg é de Nova Jersey, mas se debandou para a Califórnia, me convenci de que valia igual (a ideia mais convincente é aquela que a gente começa mentindo pra gente mesmo). Ainda não consegui passar da primeira página. Mas vai dar.

Mas e agora? Que livro trazer da Noruega? E se é para manter a regra de ser na língua local, vai só fazer bonito na estante.

*Sem querer já tinha começado a brincadeira quando vim de Londres com um The Hound of The Baskervilles, do Conan Doyle. Li vários da série Sherlock Holmes na adolescência.

E era tudo verdade*

Curiosidade, às vezes fantasia, outras indiferença. Pequena marca de uma página onde impera o espaço em branco, os agradecimentos de um livro já atraíram minha atenção de diferentes maneiras.
Em Lágrimas na Chuva – Uma Aventura na URSS, livro autobiográfico de Sergio Faraco, a dedicatória “Para Jaime” é a prova antes da dúvida, um não fictício que me passou quase despercebido.
A saída do Brasil para um curso na antiga União Soviética, a perseguição dos colegas de curso no Instituto Universal de Ciências Sociais, em Moscou, a paixão pela russa Nina, o hospício, a fuga de volta ao país natal. Na narrativa do livro, tão improvável quanto essa sucessão biográfica de fatos é Jaime, o amigo dominicano de Faraco que se oferece despropositadamente em tempos difíceis. Pés que servem de apoio na neve, costas que sustentam o corpo fraco. Jaime não pede nada em troca além de que Faraco seja forte e não tome as pílulas.
… Eu não sabia que ainda era capaz de chorar. A emoção, contudo, era o desafogo de outros sentimentos. Como não me dera conta de que estava, à minha frente, com o cálice no ar, o amigo que tanto buscara?“, disse o autor no ano-novo que passou em um hospital, ao lado do amigo, mas longe de todo o resto que importava.
Mais de 20 capítulos depois, retomei aquela confissão de carinho que estava ali, nas primeiras páginas. Aquela despercebida. Tão fantasticamente contada e dolorida, a experiência de Faraco parece mesmo invenção. Mas “Para Jaime” não é inventado. É como se fosse Faraco a provocar os incrédulos: “E não é que é tudo verdade?

Publicado também em Mundo Livro

buscam-se narrativas

tava ali sentada na grama, lendo meu Bolaño póstumo. um grupo se aproxima de outro:

“somos estudantes de psicologia e a gente está fazendo um trabalho para a faculdade. podemos filmar? a pergunta é: pra ti, o que é felicidade?”.

no livro, rosa acaba de descobrir a homossexualidade do pai. tem uma infelicidade ali. não julgo rosa, não julgo o guri que responde qualquer coisa para se livrar da câmera e do grupo de estudantes. há infelicidades e há subjetividades. cada qual com as suas.

isso, não me percebam. não sei responder isso. há uma dose grande de clichê em também não saber o que é felicidade. pra além da anestesia, tenho, para cada página lida, o lembrete da narrativa inexistente.