Homens de neandertal já fomos

Flaubert, enfastiado da França, buscou encontrar no Oriente tudo aquilo que não encontrava em seu país, como conta o filósofo Alain de Botton no livro A Arte de Viajar.

Meu lado Flaubert arrancou-se para Argentina e Uruguai nestas férias, mas em um sentido meio inverso. No meio da correria da rotina, nem sempre se percebe as mazelas da nossa cidade. Não fui à procura do diferente, mas deparei com algumas cenas que me chamaram a atenção nas capitais dos hermanos.

O trânsito em Buenos Aires, cidade grande que é, obviamente é mais caótico do que em Porto Alegre. De qualquer forma, toda vez que precisei atravessar uma rua, os motoristas efetivamente começam a parar no sinal amarelo. Aqui, parece que houve uma inversão da sinalização. O sinal de cuidado é inútil. Passei a perceber, nas minhas corridas, que, não eventualmente, os motoristas ultrapassam o sinal vermelho só porque recém mudou.

Em Montevidéu, não é preciso esticar nenhuma mão e esperar que os carros parem, como se o pedestre pedisse o favor de o condutor parar o veículo, ainda que a obrigação esteja prevista em lei. Acostumada em não acreditar na educação no trânsito porto-alegrense, caí em espanto quando, simplesmente ao parar no cordão da calçada para esperar a ausência de veículos, ví uma fila de motoristas uruguaios pararem imediatamente para a minha travessia.

Mais um ponto para Buenos Aires: idoso tem vez no metrô. Das quatro linhas lotadas que precisamos tomar na capital argentina, minha mãe de 75 anos ganhou lugar imediatamente. Outra sinalização ignorada por muito porto-alegrenses: os bancos amarelos reservados aos mais velhos no momento em que o ônibus está cheio de velhinhos.

E a vida ao redor do Rio da Prata? Quando a orla do Guaíba chegará um pouquinho perto daquilo?

Anúncios