Não há mais segredos

Prisão perpétua. Saí do cinema, após assistir El Secreto de sus Ojos, melhor filme estrangeiro no oscar, e fiquei pensando, no caminho a pé de volta para casa, nessas prisões quase perpétuas a que a gente mesmo se condena.

Morales tinha 20 e poucos anos quando a bela mulher foi brutalmente assassinada. Passou outros 25 com o retrato dela na estante. Tinha 27 anos quando soube que um ônibus tinha passado por cima do meu pai. Passei mais de dois anos sem deixar de pensar nele um dia sequer. Talvez me sentisse culpada se não pensasse e deixasse que os pequenos detalhes começassem a se apagar.

Percebi que os dias de lembranças têm falhado. Já não penso todos os dias. Já não penso em tudo que preciso fazer se tudo pode acabar na fração de segundo em que não enxergamos o sol e deixamos uma vida saudável acabar embaixo de grandes rodas.

As lembranças diárias me prendiam. Tão forte quanto essas prisões de desenho animado, em que colocam uma grande bola de ferro no pé do sujeito em cárcere. Não quero ser Espósito e deixar que tudo se resolva somente quando me decidir por escrever um livro.

Vou ali dar uma vivida, então, sem grandes temores e culpas. Nos vemos todos por aí.

Anúncios