Viajar é também repensar e refazer

Nesse exato momento, estou na estação de trem de Oslo, esperando o trem para o aeroporto de Gardermoen, de onde pego o voo de volta para o Brasil. Tive problemas com a internet nos últimos dias. Vou soltando alguns relatos do resto da viagem aos poucos.

A decisão de me estender em Tromso, onde acabei ficando metade da viagem, resultou em eu desistir do arquipélago de Lofoten. E é com aperto no coração que deixo a Noruega sem ter ido às ilhas. Assim como não poder ter ido a Geiranger conferir o fiorde número um do país. De qualquer forma, cheguei a passar por duas cidades vizinhas: Andalsnes e Alesund, depois de uma longa e meio tensa viagem de trem partindo de Bodo, que ainda é acima do Círculo Polar Ártico. Era noite e ventava muito do lado de fora. Cheguei a ter um pesadelo em estilo meio casa de Doroty voando em O Mágico de Oz. O termômetro interno do vagão marcava -15°C do lado externo.

Por que essas cidades todas? Buenas, Bodo era de onde eu podia chegar a Lofoten, plano inicial. Mas acabou que eu só tive uma tarde ali e não tive como ir ao arquipélago. e também não podia seguir direto adiante, pois a compra de passagens de trem antecipada e a preços mais baratos implicam não possibilidade de remarcação ou de grana de volta. Pra não perder a grana, tive de manter o itinerário meio estranho.

Queria muito ver o Geirangerfjord, patrimônio listado pela Unesco e fiorde número 1 da Noruega. Pode-se chegar até a cidade por Andalsnes ou Alesund. Só Andalsnes tem estação de trem. Só Alesund tinha hostel HI aberto. Mais uma redução de tempo, mais uma atração que tive de deixar pra trás.

Mas enquanto achei Bodo bastante sem graça. Alesund valeu a curta estadia, mesmo com a frustração de não ver o Geirangerfjord. A cidade é bem bonitinha, com várias construções em art nouveau. O próprio hostel da HI fica em um deles. A parte central da cidade foi consumida por um incêndio no início do século anterior. O estilo era moda à época, e a reconstrução tomou carona nisso.

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Enfim, refazer o roteiro não chega a ser frustrante. É uma forma de aprender as possibilidades turísticas do país meio que na marra. Gosto disso. Hoje, se alguém me pergunta o que fazer por aqui, de tanto ler, quebrar a cabeça e estudar possibilidades, eu posso ajudar bastante.

Primeira e principal lição para quem vem para ver as “northern lights”. NUNCA reserve menos de cinco dias para isso.

E depois disso, próxima parada: Oslo, por trem novamente.

NORUEGA EM DROPS

* Nas primeiras cidades onde estive, descobri um ser em extinção: policiais. Em Tromso, só vi um carro policial no sétimo dia de viagem.

* Aqui, até a estadia em hostel não é das mais baratas. Aliás, é, sem dúvida, o país mais caro da Europa. Mas o bufê de café da manhã de alguns da linha HI por aqui chegam a ser melhores do que de muito hotel por aí. Obviamente, transformei na minha principal refeição do dia. No de Alesund, por exemplo, tinha até salmão cru. Mas eu segui emagrecendo, creio. Não consegui me pesar mais, mas as roupas “dançam” um pouco mais a cada dia.

* Por falar em salmão cru, esse país é ômega 3 na veia. E coisa boa o peixe aqui, vou te dizer.

* As pessoas quando são bonitas até enjoa de olhar. Exceto as crianças. Todas são lindas e eu não canso de bater foto delas em seus meigos modelitos de inverno ou brincando na neve.

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* Os noruegueses são mesmo meio fechadões, mas sempre de boa vontade quando perguntamos algo. E, realmente, quase todo mundo fala inglês aqui. Dificuldades maiores apenas com o pessoal mais velho. E olhe lá.

* Aficionados por Kit Kat, preciso informá-los: existe uma versão infinitamente melhor no mundo. Bem mais cara também. Tô pensando em levar daqui e pagar minhas dívidas de viagem vendendo pelo Brasil.

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Despedida de Tromso

Já não lembro mais se foi proposital. Acho até que não. Mas foi a primeira vez que eu passei meu aniversário totalmente sozinha e, ao mesmo tempo, tão longe. Foi estranho. Fez falta o pão de ló com recheio de leite condensado coberto por glacê da dona Marly. E o beijo de metade dos irmãos. E o xingão na outra metade que esqueceu. Metade nada. Porra, Cacau, tu tem de deixar de ser o único esquecido.

Pensei em me pagar uma boa janta nesse dia. Acabei me fartando em um kebab, o salvador de estômagos famintos all over the world. Nem foi pela grana. Mas marcava -5°C às 22h em Tromso, onde eu ainda estava, e ficou difícil de ficar procurando restaurante sem congelar.

No dia seguinte, quarta-feira, 20 de março, tinha decidido que ia tentar ver as luzes meio que por minha conta. Pesquisando, descobri que havia algumas opções. Uma delas era ir à área perto do Museu de Tromso e caminhar por zonas mais escuras ao redor. Outra era pegar um bus até Ersfjordbotn e ver por lá. A primeira, não muito eficiente, me disse o guia da Tourist Information. A segunda, talvez. Problema: pode fazer muito frio no local e o último bus parte cedo de volta a Tromso nessa época do ano. Então eu descobri que dava para fazer um percurso diferente: tomar um ônibus até Skjervoy e de lá pegar um barco da Hurtigruten de volta a Tromso. Essa empresa opera várias viagens por aqui, para quem quer ver os famosos fiordes noruegueses. Mas muitas dessas viagens só ocorrem no período de fim de abril a setembro ou outubro, devido ao inverno. Não era o caso dessa, por minha sorte.

“Eu recomendo muito essa viagem pra hoje”, disse o guia. “O barco passa por áreas realmente escuras, e o céu está sem nuvens”.

Fali mais um pouquinho, mas comprei o passe. A viagem é longa. Cerca de oito horas no total. Começando às 16h e terminando quase meia-noite. E congelante. Ficar do lado de fora do navio esperando ela dar as caras quase me deixou sem nariz, mãos e pés. Principalmente os pés.

Verdade é que ela não demorou a aparecer. E “dançou”. E ficou mais de hora aparecendo em um ponto, reaparecendo em outro. E eu nem aí para o frio. Quando percebi, já não sentia mais os pés e tive de entrar na parte interna do barco, com a aurora boreal ainda lá fora.

E dava para se deixar vencer pelo frio diante desse espetáculo, na minha última noite em Tromso?

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E, então, aconteceu

Tão lindo amanheceu o sábado. Depois de uma noite de sono meio estranha, com dificuldades para dormir em função das quatros horas a mais de fuso na Noruega, caí da cama – cara, mas muito boa. Apesar do sol, Tromso amanheceu branquinha e escorregadia, como comprovei algumas vezes durante o dia.

Amanhecer em Tromso

Amanhecer em Tromso

Mas não foi um dia com cara de férias e descanso. Como eu deixei para reservar os hotéis de ultima hora, não consegui marcar as três noites seguidas em um mesmo lugar. Por isso, tive de fazer o check out até meio-dia em um e depois ficar dando banda de mochila ate a hora do check in em outro, as 15h. Atravessei a ponte da cidade para conferir o cable car, que, dizem, dá uma bela visão da cidade. Por ali também fica a Arctic Cathedral. A igreja estava fechada, o cable car, em manutenção até maio. Começaram os azares do dia.

Consegui me proteger bem do frio, de maneira geral, exceto o rosto e o pequeno nariz, e eu fiquei com essa carinha de rena do nariz vermelho.

O frio queima mesmo, sabe?

O frio queima mesmo, sabe?

Depois de uma cochilada no novo hotel, acordei para a expedição que eu tinha agendado do Brasil para ver a aurora boreal. Como as luzes da cidade dificultam que a gente a veja, guias nos levam de bus até pontos afastados – e frios, bem frios – para tentar enxergá-la. But, Houston, we have a problem. Apesar de haver previsão de atividade moderada das tais luzes do norte, o tempo fechou e, com céu nublado, muito pouco se vê. Ou nada, como aconteceu, apesar de termos passado a noite rodando atrás de lugares com céu mais claro. Fomos até a fronteira com a Finlândia. Nada, a não ser escuridão e um frio de doer. Não consegui ficar muito tempo fora do ônibus, porque comecei a deixar de sentir os pés lá pelas tantas.

Frustrada, voltei para o hotel, mas decidida a repensar a vida. Só tinha mais uma noite em Tromso e, por fim, toda essa ideia doida de se meter onde o Diabo perdeu as botas tem um único motivo: ver a aurora. Mas e a grana pra ficar mais três noites onde todos os hotéis custam um rim? E para fazer mais dessas excursões? Mandei às favas. O cartão de crédito que me salve, em último caso, e comprometo o outro rim no IOF. Faz parte.

Depois de passar o dia cancelando reservas em hostel, remarcando passagem aérea e renovando pedidos de couchsurfing pelo site para tentar baratear a viagem, dei uma passada na agência da expedição para conferir a atividade da aurora para o dia, que não apenas seguia nublado, mas com muita queda de neve.

“A aurora está numa atividade quase anormal”, me disse o cara da agência. “Embora esteja nublado, é bem provável que se veja algo. Se tivesse céu totalmente claro, se poderia ver aqui da cidade mesmo, ali na rua”.

Achei que era papo. Disse que ia até o hotel e de lá decidiria o que fazer. E aí, catando na internet os sites de forecast, dei de cara com a palavra HIGH. Em caps lock e vermelho. Ok, não precisava mais pensar.

No caminho, os guias foram nos atualizando da atividade da aurora, que tem uma medida que vai de 1 a 10. Estava em 9,5, o que um deles classificou de “brutal activity”.

No local onde paramos para observar, estava totalmente nublado, mas havia previsão de limpar a partir das 21h. Câmera no tripé, ajustes manuais de abertura, exposição e foco feitos, tentava olhar para o céu, mas a neve caía forte nesse momento e entrava direto no meu olho. Quando, mais uma vez, deixei de sentir meus pés, resolvi que entraria no ônibus um bocado, para aquecer um pouquinho antes de voltar à jornada de São Tomé. Nesse instante, os guias estavam mesmo começando a servir chocolate quente e uns biscoitos. É bom, mas não duvidem, também extremamente complicado. As mãos realmente congelam na tirada das luvas para fazer qualquer coisa.

Entre um chocolate quente e outro, saltou do ônibus um dos guias:

“Guys! Northern lights, northern ligths over there!”

Minha "primeira" aurora

Minha “primeira” aurora

E todo mundo correu para o outro lado. Ela começou em pequenas linhas verdes no céu, nada sinuosas, quase invisíveis. Apesar da atividade intensa, ela não veio com força a maior parte do tempo. Ainda assim, quando os clarões verdes mais fortes se manifestaram, borrando o céu inadvertidamente, eu não segurei a onda. Chorei mesmo.

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Provavelmente me arrisque de novo em outra expedição para tentar ver as “luzes do norte”. Se as previsões forem boas, claro. Principalmente na terça-feira, dia de alcançar os 33 anos. Idade do juízo e de “sossegar o facho”, como pede minha mãe? Acho que não.

Nessa hora, ate esqueci do frio nos pes

Nessa hora, ate esqueci do frio nos pes

P.S.: o adaptador que eu trouxe nao serve para as tomadas da Noruega, entao estou sem usar meu proprio note. Sorry pela falta bizarra de acentos  (comprei nessa segunda-feira um adaptador e arrumei o texto)

P.S.: momento de terror e pânico: entrei no ônibus e não encontrava de jeito nenhum minha bolsinha com grana, passaporte, cartões, enfim, tudo de importante para minha sobrevivência. Avisei um dos guias, desci do bus e fui correndo na agência e perguntei se tinham visto algo. Lá estava ela, paradinha em um dos balcões. Noruega, minha gente, Noruega.