Virou festa

Dois dias nublados em sequência. Segunda-feira, bastante gente nas ruas. Tromso, uma ilha, é a cidade mais habitada ao norte do Círculo Polar Ártico. Moram aqui 70 mil pessoas, muitos universitários. Entre os ativos, o sol, que derreteu um tanto da neve que caiu na véspera. O chão ficou bem escorregadio, e eu, traumatizada de um belo tombo que tomei no sábado (mais detalhes em P.S.), dava voltas maiores para escapar das descidas mais íngremes.Isso porque eu precisava mudar de hotel. DE NOVO.

Então, o clima. Como disse Francesco, um dos guias da excursão para ver a aurora, a expedição é muito mais em busca de lugares onde o clima nos ajude a ver a aurora do que das luzes em si. As que vi ontem eram de atividade magnética muito anormal. Porém, sem nuvens no céu, seria praticamente um espetáculo. O que não foi o caso.

Por isso tudo, passei a monitorar também o site de tempo que mostra a nebulosidade do céu de hora em hora. E muda o tempo todo. Na véspera, apontava uns 80%. Hoje, às 16h, apontava 50%. Passei na agência de novo para perguntar quais as condições. Uma menina disse que a atividade da aurora estava muito baixa. Só que, mais cedo, não era isso que apontava o site de forecast. Fiquei meio cabreira. Quase não fui. Mas voltei lá e assinei, pela terceira vez, o cartão de embarque do bus rumo ao lugar de menor nebulosidade pesquisado pelos guias.

De novo, duas horas de viagem. No caminho, Francesco explicou que a atividade estava mesmo muito baixa. Como havia ocorrido uma tempestade solar em 15 de março, isso se refletiu na aurora por esses dias (leia mais aqui). Isso teria levado os sites de forecast a apontar atividade mais intensa. Lá pelas tantas, ele viu que estava aumentando para as próximas horas mesmo.

Mas todo mundo no ônibus já estava meio desesperançado. Chegamos a Skjold – o ponto de observação dessa noite – e pensei “bom, pelo menos está um céu de planetário”. E tava lindo mesmo.

Nenhuma nuvem em Skjold

Nenhuma nuvem em Skjold

Francesco, que antes de ser guia é fotógrafo profissional e toca paralelamente um projeto chamado Northern Shots, avisou: “Tem atividade aqui. Invisível a olho nu, mas a máquina fotográfica registra. E tem rosa também, não apenas verde”

Todo mundo virou os tripés para o mesmo ponto. Mas era algo realmente bem tímido.

Também em rosa por hoje

Também em rosa por hoje

Mas parecia que ia ficar por isso mesmo. E todo mundo foi se aquecer com chocolate quente e biscoitos (eu janto isso há três dias, mal posso ver à frente, por ora).

E aí, de repente, apareceu. Devagarinho, ficando mais forte. E o céu ficou tipo assim:

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E assim…

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… e mais um tanto…

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P.S.: o tal tombo. Voltava eu do outro lado da ilha, na ida ao funicular – aquele fechado, em manutenção. Com um mochilão nas costas, outro na frente e a câmera nova na mão direita (tinha acabado de tirar umas fotos), fui atravessar a rua e escorreguei bonito. Para salvar a Canon, caí todo o lado esquerdo. Sem luvas, queimei a mão (é, gelo queima mesmo) e ganhei uma bela dor muscular na coxa esquerda. Mas a câmera ficou inteirinha. Estão aí as fotos da aurora para comprovar 🙂

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See you later alligator

O assunto não variou muito nos últimos quatro meses. Desculpa aos amigos que tiveram de conviver com uma versão um tanto monotemática de mim, que tanto falou dessa tal de aurora boreal nas semanas que vieram depois daquela noite em que eu simplesmente comprei uma passagem para a Noruega, em novembro. Como se fosse assim, ponte aérea de novela da Glória Perez.

Enfim, o dia de dar essa banda começa hoje. Serão umas 18 horas no total, saindo de Sampa, onde estou agora, rumo a Tromso, cidade que, no meu Lonely Planet Noruega, fica no capítulo The Far North (acima do Círculo Polar Ártico, traduzindo).

“Por quê?” era a reação de quatro a cada cinco. O que dá para responder? Não faço a mínima ideia. Teve esse dia que eu vi o relato de alguém que viu a aurora, procurei algumas fotos, vi alguns time-lapses e aí já era. Desde pequena, minha mãe me chama de “curió”, um adjetivo que eu não faço a mínima ideia de onde vem, mas que significa algo tipo um teimoso muito chato que, quando quer algo, dá um jeito de conseguir ou fazer. Não tem muito o que explicar. Basicamente é isso.

“Mas o que é a aurora?” foi a top second. Buenas, aí já dá para chutar menos e ser mais direta: tudo meio culpa do sol, ainda que seja à noite que se saia à cata dela. O que diz o site de turismo oficial do país:

“Durante grandes explosões e chamas solares, grande quantidade de partículas são jogadas para fora do sol e em espaço profundo.

Quando essas partículas se encontram com o escudo magnético da Terra, são levadas para um círculo em torno do polo norte magnético, onde interagem com as camadas superiores da atmosfera. A energia que é liberada são as luzes do norte.”

Como eu vou fazer para ver (não é um lance assim tão mel na chupeta) e outros detalhes   virão em posts na sequência, já que a ideia é mesmo relatar a viagem por aqui. Por ora, deixo vocês com a imagem da previsão de atividade da aurora boreal para 16 de março, dia principal da busca.

Sorte de viajante: atividade moderada em 16 de março

Sorte de viajante: atividade moderada em 16 de março

Fonte: http://www.gi.alaska.edu/AuroraForecast/Europe

Retomando a brincadeira

Tem uma saudade que tem me apertado o coração tanto quanto aquela de todos os lugares onde ainda não estive e todos os livros que ainda não li: escrever.

A ideia é me aproveitar do que começou com assuntos aleatórios, lá em 2006 (cruzes), para falar do meu bem-estar favorito: estar por aí. Até já tinha ensaiado focar no assunto quando fiz o trekking em Torres del Paine, no Chile, e a travessia rumo ao Salar de Uyuni, na Bolívia.

Nesse meio tempo, outra viagem apareceu pelo caminho, coisa loucas aconteceram, muita procrastinação tomou conta de mim, e tudo ficou só na memória. Foi buscando os termos de buscas no meu contador que eu vi o quanto palavras dos roteiros que fiz trazem leitores pra cá. Pensando nisso, talvez eu tente soltar uns drops de Nova York, São Francisco e Yosemite quando der.

Antes disso, a aurora boreal me espera. Ou melhor, parece que eu terei de sentar o corpinho no frio e esperar que ela seja gentil e apareça para mim, em março. A parte de fazer o roteiro, essa que é mais de 50% da diversão, tá na agenda das horas livres.

altitude, frio e a cumbia boliviana

Nada tinha me assustado, nesse quase um mês de viagem sozinha, até começar a programar o passeio ao salar de uyuni, na bolívia. e olha que eu aprontei de tudo um pouco até esse ponto do roteiro, como fui contando por aqui. fato é que, se tem uma coisa que me dá medo, sozinha ou não, é depender de estradas ruins e motoristas desconhecidos. de certa forma, assim seria minha reserva do tour ao salar: um chute quase no escuro.

depois da função pesquisa por uma agência decente para fazer o passeio de quatro dias, em jipes 4×4, fiquei mesmo com a mais carinha, mas que, ao que tudo indicava no trip advisor, era a mais aconselhável. Para se dirigir ao maior deserto de sal do mundo (12 mil km²), saindo de são pedro de Atacama, existem duas opções: uma viagem de três dias e duas noites, ficando no fim do tour por uyuni mesmo, cidade na bolívia sem nada para fazer, ou em quatro dias e três noites, voltando para São Pedro. Fiquei com a segunda, já que era mais barato voltar para poa de santiago do que de algum lugar da bolívia.

uma vez acertado tudo com a agência e comprados os “snacks” para a viagem de quatro dias, terça-feira pela manhã, pouco antes das 8h, estava eu em frente ao escritório deles, como combinado, mas não havia sinal de ninguém no local. por um instante, cheguei a pensar que tinha entendido algo errado. até que chegou um casal de brasileiros, do rio de janeiro.

após chegar alguém da agência, trocamos dinheiro, compramos água e, dali, fomos em uma van até a fronteira chile-bolívia. o posto de saída do chile era bem direitinho, já o de imigração da bolívia… julguem por conta própria.

"posto" de imigração boliviano

Depois de todos os procedimentos de imigração é que a aventura começa mesmo. Em 12 pessoas, fomos divididos em dois grupos de seis para dois jipes. não fiquei com os brasileiros, pois um dos carros ficou com os três casais da excursão. tive de ir para o outro, com um bando de suíços e um francês.

viagem em jipes 4x4

Rolou uma dor de cabeça de tanta gente falando alemão ao mesmo tempo, somado a um calypso boliviano rolando solto na rádio do Alejandro, motora que dirigia o nosso jipe. nesse primeiro dia, vimos as lagunas blanca e verde, ao pé do vulcão licancabur, mais a laguna colorada e seus flamingos.

laguna verde

Isso tudo depois de tomar um banhinho (o único do dia, diga-se) em águas termais e visitar os geysers sol de la mañana, a uma altitude de 4.985 metros, conforme marcava o relógio do cristian, um dos suiços que ia no meu jipe.

acho que, até então, não tinha estado em um lugar tão alto. não sofri como no segundo dia da trilha inca, no peru, uma vez que o esforço físico aqui é menor, né? (galera fica um tempão dentro do jipe). anyway, nessa primeira noite, todo mundo dormiu mal pra caramba e se acordou pelas duas da matina, com uma sensação de chapadeira.

eu não cheguei a me sentir “perdida”, mas respirei mal e fiquei com uma p*** dor de cabeça. deveria ter arranjado umas folhas de coca.

santiago (2)

comecei meu curso de espanhol na segunda-feira do dia 4 com um primeiro susto. na verdade, o alojamento na casa da professora não estava incluído no valor, como eu imaginava. isso me custou uns 140 e poucos dólares a mais, bem mais caro do que se continuasse no hostel. mas, enfim, foi bom,  já que o curso era de apenas uma semana. valeria mais para a imersão.

como todo mundo diz, realmente os chilenos falam rápido. mas nenhum fenômeno que eu já não tivesse percebido também nos argentinos ou nos uruguaios. e como o pessoal chileno é gente fina e parceira, sempre te atendem com atenção, o que significa também falar mais devagar.

na escola, tinha optado por uma semana intensiva chamada turbo ou combo, algo assim. tinha aulas do meu nível, intermediário, das 10h às 13h30min, com um intervalinho, e uma hora e meia de aula particular todos os dias, quatro deles com um professor gente finíssima, o sebastián, que me deu um pouco de conteúdo do nível avançado.

galera da rua com quem eu precisei conversar sempre acha que eu falo bem, mas, na verdade, só na escola pude ver o quanto de portunhol ainda escapa. espero ter melhorado um bocado disso, porque portunhol é um saco, sinceramente. das coisas que me fazem sair na frente é ter a facilidade com os “rrrr”, graças ao querido victor, amigo colombiano que fiz em londres e repetia meu nome assim: “rrrrrita”. a outra é não confundir a informalidade do tu com a formalidade do usted, do espanhol falado na maioria de nossos vizinhos. confusão típica dos brasileiros. ponto para os gaúchos.

por sorte, todo dia de manhã eu e lidia saímos no mesmo horário. ela tem várias histórias para contar, muito legal. e assim também não me perdia, porque ela mora numa ruazinha pequena, meio difícil de achar, mas num bairro muito tranquilo, nuñoa. íamos de táxi compartido, algo que achei fantástico em santiago. são linhas de táxi que levam pessoas diferentes pelo valor de uma passagem de ônibus, basicamente.

já a escola ficava no bairro providência, pertinho da zona mais boêmia da cidade, o bairro bella vista, mas também não fiz nada muito boêmio nesse período. no máximo, fui numa festinha em prol dos animais de rua, que a lidia me convidou.

festinha el perroton, em prol dos animais de rua

gostei do curso e da estadia em santiago. conheci mais umas tantas pessoas e já estava até me acostumando com o ritmo às vezes meio enlouquecido da cidade, passado o choque inicial patagônia-cidade grande. pena não poder ter visto a cordilheira “protegendo” a capital em sua totalidade, já que não chovia há um tempo em santiago e rola um smog forte.

fiquei de domingo a sexta na casa de lidia. no último dia mesmo, peguei um bus para san pedro de atacama, para me meter em novas “empreitadas”. foram 23 horas em um bus semi-cama (mais barato). para a volta, comprei passagem mais cara, tipo salon cama. mas a semi-cama mesmo estava ok. só me assustei com a quantidade de homens que entraram no bus, he. mas, ok, dormi feito um bebê de qualquer forma.

san pedro fica para os próximos capítulos.

Heavy boots

Não chove há um tempo em Santiago e o smog não te deixa ver a cordilheira

De tanta circulação em van, ônibus, catamarã e pernas naqueles dias de Calafate e sul do Chile, entrar naquele voo Punta Arenas-Santiago foi quase um estranhamento. Ainda que o aeroporto da cidade fosse minúsculo, era muita “modernidade” depois de uma “vida tão simples”.

Três horas de bus até punta arenas, mais cinco horas de voo até santiago.  praticamente terminei “adeus, columbus”, do roth. um episódio de friends no voo amainou o sentimento de heavy, heavy boots. não sei porque sempre sonho com meu pai quando tô viajando.

Cheguei a Santiago às 20h30min de quinta, 30 de março. casacos, mantas, luvas, tudo pro fim da mochila. peguei um transfer vip até o che lagarto, onde ficaria até o início do curso de espanhol. a opção do transfer é bem mais barata do que ir de táxi, tipo uns 1o mil pesos chilenos a menos (ou 1o lucas, como eles dizem).

hostel bombando com a aproximação do lollapalooza no fim de semana, mais a maratona de santiago 2011 no domingo. desisti da ideia de ir pra vina del mar e valparaiso pra conhecer a capital nesses dias, já que estaria envolvida com os dois tais eventos e o curso na outra semana. no fim, foi uma boa ideia.  ia sozinha no festival, e isso tava me deixando um pouco ansiosa (patagônia, tudo bem, com esse amontoado de gente, não!).  conheci no che lagarto um cubano que também tava sozinho pro festival e fomos junto no primeiro dia. saca só o nome: juan carlos. boa coincidência, não?

o trânsito, o amontoado de pessoas, os guardas te parando pra dizer que se tome cuidado com bolsas e máquinas, tudo isso te dá uma primeira sensação de insegurança, mas santiago me parece mais segura do que porto alegre. o que me incomodou mesmo, de início, foi o agito todo, afinal, foi um salto dos 19 mil habitantes de puerto natales para os mais de cinco milhões da capital.

mais sobre o festival, a maratona e minha estadia na casa de Lidia, professora da escola onde to fazendo uma semana de intensivo de espanhol, fica pra depois. amanhã vou pra San Pedro de Atacama, umas 23 horas de bus, o que me faz querer aproveitar a última noite na caminha boa onde estou!