Do que eu falo quando falo de viajar de trem

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Torço pela pequena turbulência. E eu nem tô falando de vida e montanha russa de emoções (ao menos não nessa sentença). Os voos têm essa inércia que me fazem dormir antes mesmo do avião decolar e quase sempre acordar depois que já estão no chão. A pequena turbulência e o aviso de apertar os cintos me aliviam do tédio.

Gosto demais do movimento do trem. E de viajar de ônibus. Não é só o “enxergar” o deslocamento. É deslocar o pensamento para onde a gente não consegue no dia a dia. Uma forma de meditação? É o que parece. Tem gente que diz que coloca o pensamento em ordem em total silêncio, ouvindo o barulho da água, olhando para o mar, sentindo um cheiro. Eu reinvento situações, reorganizo ideias, acho soluções e bagunço tudo de novo, sem nenhum compromisso, no ritmo das formas que se repetem pela janela.

Essa reflexão já tinha me chamado a atenção em um livro do Alain de Botton chamado
A Arte de Viajar:

“Reflexões introspectivas suscetíveis a empacar são auxiliadas pelo fluxo da paisagem. A mente pode relutar em pensar corretamente quando se espera que ela apenas reflita. A tarefa pode ser tão paralisante como ter de contar uma piada ou imitar um sotaque a pedido de alguém. O ato de pensar melhora quando partes da mente recebem outras tarefas, ocupadas em ouvir música ou em acompanhar uma sucessão de árvores. A música ou a paisagem distrai, por momentos, aquela parte nervosa, crítica e prática da mente que se inclina para um bloqueio quando percebe algo difícil surgindo na consciência e que foge assustada de lembranças, anseios, ideias antigas ou originais, pois prefere aquilo que é administrativo e impessoal. […] Ao fim de horas de devaneios ferroviários, podemos sentir que voltamos a nós mesmos – ou seja, fomos trazidos novamente ao contato com ideais e emoções importantes. Não é necessariamente em casa que encontramos nosso verdadeiro eu. A mobília insiste em que não podemos mudar porque ela não muda; o ambiente doméstico nos mantém amarrados à pessoa que somos na vida comum, mas que talvez não sejamos essencialmente”.

Outra coisa que eu gosto muito de fazer em viagens é caminhar. E sozinha. Até uso os meios de transporte público durante a estadia em um local para conhecer como são nos diferentes lugares, mas nada me deixa mais à vontade do que uma “perneada” em um dia de sol. E por que sozinha? Não sou uma pessoa ranzinza que não gosta de companhia para viajar. Até senti falta nesta última jornada. Mas existe uma incrível liberdade em não falar – melhor, a não obrigatoriedade de falar, a não obrigatoriedade de ser escutada. É quase transgredir. Algo que, no dia a dia, busco por meio da corrida. E lá vou eu de referência literária novamente, dessa vez de Haruki Murakami, em Do que eu falo quando falo de corrida:

“Eu corro em um vazio. Talvez eu devesse colocar dessa maneira: eu corro para adquirir um vazio. […]  O desejo em mim de ficar sozinho não mudou. É por isso que a hora que eu passo correndo, mantendo o meu próprio tempo, em silêncio privado, é importante para ajudar a manter meu bem-estar mental. Quando eu estou correndo, não tenho que falar com alguém e não tenho que ouvir ninguém. Tudo que eu preciso fazer é olhar para a paisagem que passa. Esta é uma parte do meu dia que eu não posso ficar sem.”

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